sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Diálogo Bobo


- Abandonou-te?
- Pior ainda: esqueceu-me...

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

K

Letra caminhante.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Verso Avulso

O luar é a luz do sol que está dormindo... O luar é a luz do sol que está dormindo...

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

domingo, fevereiro 19, 2006

As falsas Recordações

Se a gente pudesse escolher a infância
que teria vivido, com enternecimento eu não
recordaria agora aquele velho tio de perna de pau,
que nunca existiu na familia, e aquele arroio que
nunca passou aos fundos do quintal,
e onde íamos pescar e sestear nas tardes de verão,
sob o zumbido inquietante dos besouros...

[Mario Quintana; Sapato Florido, 1948]

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Linha Curva


O caminho mais agradável entre dois pontos.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

Linha Reta


Linha sem imaginação.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

domingo, fevereiro 12, 2006

Melancolia

Maneira romântica de ficar triste.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Zunzum

Coisa que anda correndo por aí...

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

Zéfiro

Vento fresco.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Vento


Pastor das nuvens.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Os Crocodilos

Pior, mas muito pior mesmo do que as lágrimas de crocodilo são os sorrisos de crocodilo.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]


os crocodilos

domingo, fevereiro 05, 2006

Agressões

O ataque de uma borboleta agrada mais do que todos os beijos de um cavalo.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

sábado, fevereiro 04, 2006

verbetes

Seminário
Depósito de sêmen.




Querubim
Anjo rococó.




Poeta lírico
Triste passarinho esgoelado em público pelas declamadoras.

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Edificante Poema Escrito em Portuñol

Don Ramón se tomo um pifón:
bebia demasiado, don Ramón!

Y al volver cambaleante a su casa,
avistó em el camino:
um árbol
y um toro...

Pero como veia duplo, don Ramón
vio um árbol que era
y um árbol que no era,
um toro que era
y um toro que no era.
Y don Ramón se subió al árbol que no era:
Y lo atropelo el toro que era.
Triste fim de don Ramón!

[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

Poema

O grilo procura
no escuro
o mais puro diamante perdido.

O grilo
com as suas frágeis britadeiras de vidro
perfura

as implacáveis solidões noturnas.

E se o que tanto busca só existe
em tua límpida loucura

- que importa? -

isso
exatamente isso
é o teu diamante mais puro!

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Busca

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí...
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!


[Mario Quintana; Poesia Completa: Poemas para a Infância, 2005]

terça-feira, janeiro 31, 2006

O Tamanho Do Espaço

A medida do espaço somo nós, homens,
Baterias de cozinha e jazz-band,
Estrelas, pássaros, satélites perdidos,
Aquele cabide no recinto do meu quarto,
Com toda a minha preguiça dependurada nele...
O espaço, que seria dele sem nós?
Mas o que enche, mesmo, toda a sua infinitude
É o poema!
- por mais leve, mais breve, por mínimo que seja...



[in: Velório Sem Defunto, 1990]

domingo, janeiro 08, 2006

A Voz

Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.



As Indagações

A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.



Ars Longa

Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.




Arte Poética
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.



[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

domingo, janeiro 01, 2006

Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça...

sexta-feira, dezembro 23, 2005

terça-feira, dezembro 20, 2005

Leituras

- Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
- Mas eu estou só esperando que apareça O Significado do Significado do Significado.





......

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Quintana, por ele mesmo

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.

Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.

[Texto escrito pelo poeta para a revista "Isto É" de 14/11/1984]

sexta-feira, dezembro 02, 2005

...

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, naquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...

segunda-feira, novembro 21, 2005

"Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas..."

quinta-feira, novembro 17, 2005

Voa um par de andorinhas, fazendo verão.
E vem uma vontade de rasgar velhas cartas,
velhos poemas, velhas contas recebidas.
Vontade de mudar de camisa,
por fora e por dentro... vontade...
Para quê esse pudor de certas palavras?
Vontade de amar, simplesmente.

[Sapato Florido, 1948]

domingo, novembro 06, 2005

Da calúnia




Sorri com tranquilidade
Quando alguém te calunia.
Quem sabe o que não seria
Se ele dissesse a verdade...


In: Espelho Mágico (1945)

sábado, novembro 05, 2005

O gato

O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara...hesita...avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.

[Quintana]

quarta-feira, novembro 02, 2005

Jardim interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
Com altos muros de um cinza muito pálido,
Onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.

O que mata um jardim
Não é mesmo alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim
É esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

terça-feira, outubro 25, 2005

Da Paginação

Os livros de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos - gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas - que passarão também a fazer parte dos poemas...


[Mario Quintana]

...

segunda-feira, agosto 08, 2005

Do Caderno H

A Arte de Ler

O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

sexta-feira, julho 29, 2005


    O papel está hoje com uma abominável falta de imaginação.
    Continua apenas, olhando-me: vazio, mais quadrado do que nunca.

quarta-feira, julho 20, 2005

I

      I


      Escrevo diante da janela aberta.
      Minha caneta é cor das venezianas:
      Verde!... E que leves, lindas filigranas
      Desenha o sol na página deserta!
      Não sei que paisagista doidivanas
      Mistura os tons... acerta... desacerta...
      Sempre em busca de nova descoberta,
      Vai colorindo as horas quotidianas...
      Jogos da luz dançando na folhagem!
      Do que eu ia escrever até me esqueço...
      Pra que pensar? Também sou da paisagem...
      Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
      E me transmuto... iriso-me... estremeço...
      Nos leves dedos que me vão pintando!


      [in: A Rua dos Cataventos]

sexta-feira, julho 15, 2005

No ano passado...

Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova. Por essas e por outras é que, nestas calçadas claras do ano bom:

Rechinam teus sapatos rua em fora.
Tão leve estou que já nem sombra tenho
E há tantos anos de tão longe venho
Que nem me lembro de mais nada agora!

Tinha um surrão todo de penas cheio
Um peso enorme para carregar!
Porém as penas, quando o vento veio,
Penas que eram... esvoaçaram no ar...

Todo de Deus me iluminei então,
Que os Doutores Sutis se escandalizem:
"Como é possível sem doutrinação?!"

Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas:
"Olha! É o Idiota desta Aldeia!" dizem...
[Mario Quintana: Porta Giratória. São Paulo, Ed Globo, 3 edição, 1997]

...

quarta-feira, julho 13, 2005

A Coisa

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

sexta-feira, julho 01, 2005

Os antigos retratos de parede



      Os antigos retratos de parede
      Não conseguem ficar longo tempo abstratos.
      Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
      Porque eles nunca se desumanizaram de todo.
      Jamais te voltas para trás de repente.
      Não, não olhes agora!
      O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
      Sem fim e sem sentido.
      Dessas que a gente inventava para enganar a
      Solidão dos caminhos sem lua.

      [in: Esconderijos do Tempo]

domingo, junho 26, 2005

CANÇÃO DE BARCO E DE OLVIDO



      Para Augusto Meyer

      Não quero a negra desnuda.
      Não quero o baú do morto.
      Eu quero o mapa das nuvens
      E um barco bem vagaroso.
      Ai esquinas esquecidas...
      Ai lampiões de fins de linha...
      Quem me abana das antigas
      Janelas de guilhotina?
      Que eu vou passando e passando,
      Como em busca de outros ares...
      Sempre de barco passando,
      Cantando os meus quintanares...
      No mesmo instante olvidando
      Tudo o de que te lembrares.


      [in: Canções]

terça-feira, junho 21, 2005

DA OBSERVAÇÃO





      Não te irrites, por mais que te fizerem...
      Estuda, a frio, o coração alheio.
      Farás, assim, do mal que eles te querem,
      Teu mais amável e sutil recreio...





      [Mario Quintana; Espelho Mágico]

quinta-feira, junho 16, 2005

O auto-retrato





      No retrato que me faço
      - traço a traço -

      às vezes me pinto nuvem,
      às vezes me pinto árvore...

      às vezes me pinto coisas
      de que nem há mais lembrança...

      ou coisas que não existem
      mas que um dia existirão...

      e, desta lida, em que busco
      - pouco a pouco -

      minha eterna semelhança,
      no final, que restará?

      Um desenho de criança...
      Corrigido por um louco!


      [in: Apontamentos de História Sobrenatural]

quarta-feira, junho 15, 2005

A Carta

Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.



[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]



segunda-feira, junho 13, 2005

CANÇÃO DE OUTONO

O outono toca realejo

No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma,

Sob a vidraça descida...

Tristeza? Encanto? Desejo?

Como é possível sabê-lo?

Um gozo incerto e dorido

de carícia a contrapelo...

Partir, ó alma, que dizes?

Colhe as horas, em suma...

mas os caminhos do Outono

Vão dar em parte alguma!

terça-feira, junho 07, 2005

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.

Como um pobre animal palpitando ferido.

Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na

[floresta noturna.

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição

[de poema.

Triste.

Solitário.

Único.

Ferido de mortal beleza.



[in: Melhores poemas. 10ª ed., São Paulo, Global, 1996]

sexta-feira, junho 03, 2005

Amar: Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...

O amor é quando a gente mora um no outro.

quarta-feira, maio 25, 2005

DA OBSERVAÇÃO




Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...




[Mario Quintana; Espelho Mágico]




sexta-feira, maio 20, 2005

As Coisas

O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da Natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
é, acaso, singular...
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
--- é simplesmente porque
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!

segunda-feira, maio 09, 2005

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste

E belo, apenas da sua tristeza.

Não vem de ti essa tristeza

Mas das mudanças do Tempo,

Que ora nos traz esperanças

Ora nos dá incerteza...

Nem importa, ao velho Tempo,

Que sejas fiel ou infiel...

Eu fico, junto à correnteza,

Olhando as horas tão breves...

E das cartas que me escreves

Faço barcos de papel!


[in: A Cor do Invisível]

quinta-feira, maio 05, 2005

Ressalva

Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.



[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

terça-feira, maio 03, 2005

Refinamentos

Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.



[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

domingo, maio 01, 2005

Dupla Delícia

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Mario Quintana


Educação

O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.




Fatalidade

O que mais enfurece o vento são esses poetas inverterados que o fazem rimar com lamento.

[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

segunda-feira, abril 18, 2005

INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA

A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...

(Mario Quintana, claro!)

domingo, abril 17, 2005

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

[Mario Quintana]

sábado, abril 16, 2005

Leitura

Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.

Leitura 2

Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir -— até onde? - —uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Lógica & Linguagem

Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística dos provérbios? Este, por exemplo: "Quem cospe para o céu, na cara lhe cai". Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão.

[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

sexta-feira, abril 15, 2005

Leituras

—Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
—Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.


Leituras 2

Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?
Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.
Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

quinta-feira, abril 07, 2005

Se o Poeta Falar Num Gato

Se o poeta falar num gato, numa flor,

num vento que anda por descampados e desvios

e nunca chegou à cidade...

se falar numa esquina mal e mal iluminada...

numa antiga sacada... num jogo de dominó...

se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade...

se falar na mão decepada no meio de uma escada

de caracol...

Se não falar em nada

e disser simplesmente tralalá... Que importa?

Todos os poemas são de amor!

domingo, abril 03, 2005

A Lua de Babilônia

Numa esquina do Labirinto

às vezes

avista-se a Lua.

"Não! como é possível uma lua subterrânea?"



(Mas cada um diz baixinho:

Deus te abençoe, visão...)



[in: Esconderijos do Tempo]

quinta-feira, março 31, 2005

Noturno Citadino

Um cartaz luminoso ri no ar.

Ó noite, ó minha nega

toda acesa

de letreiros!... Pena

é que a gente saiba ler... Senão

tu serias de uma beleza única

inteiramente feita

para o amor dos nossos olhos.



[in: Esconderijos do Tempo]

A Canção do Mar

    Esse embalo das ondas

    clique para ampliarDas ondas do mar

    Não é um embalo

    Para te ninar...


    O mar é embalado

    Pelo afogado!


    O canto do vento

    Do vento no mar

    Não é um canto

    Para te ninar...


    São eles que tentam

    Que tentam falar!


    Tiveram um nome

    Tiveram um corpo

    Agora são vozes

    Do fundo do mar...


    Um dia viremos

    Vestidos de algas

    Os olhos mais verdes

    Que as ondas amargas


    Um dia viremos

    Com barcos e remos


    Um dia...


    Dorme, filhinha...

    São vozes, são vento, são nada...


    [in: Esconderijos do Tempo]

quarta-feira, março 30, 2005

Eu Fiz Um Poema

Eu fiz um poema belo

e alto

como um girassol de Van Gogh

como um copo de chope sobre o mármore

de um bar

que um raio de sol atravessa

eu fiz um poema belo como um vitral

claro como um adro...

Agora

não sei que chuva o escorreu

suas palavras estão apagadas

alheias uma à outra como as palavras de um dicionário.

Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de uma cidade mota.

O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a terra...


Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?

Clique para ampliar a imagem
O despertador é um objeto abjeto

terça-feira, março 29, 2005

O silêncio

Há um grande silêncio que está sempre à escuta...

E a gente se poe a dizer inquietantemente qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.

Mario Quintana
[Esconderijos do Tempo]

Auto-Leitura

A minha obsessão por sapatos e vacas
Diverte os amigos
Os inimigos
Os psicólogos
Creio que diverte também até as próprias vacas
- menos a Poesia!

[Mario Quintana]

segunda-feira, março 28, 2005

Evolução

Clique para ampliarTodas as noites o sono nos atira da beira de um cais

e ficamos repousando no fundo do mar.

O mar onde tudo recomeça...

Onde tudo se refaz...

Até que, um dia, nós criaremos asas.

E andaremos no ar como se anda em terra.


[in: Esconderijos do Tempo]

sábado, janeiro 15, 2005

O Poema

O Poema

O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.


O Trágico Dilema

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.


Palavra Escrita

Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.

Poema

Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...


Poesia & Lenço
E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Poesia & Peito

Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.

[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

terça-feira, dezembro 21, 2004

Feira de Livro

Feira de Livro

O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.

[in: Caderno H, Editora Globo - Porto Alegre, 1973]

sábado, agosto 07, 2004

As Mãos de Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra - como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste alimentando na terrível solidão do mundo,como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida - que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

Canção Para Uma Valsa Lenta

Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...

sexta-feira, agosto 06, 2004

Desconfia dos que não fumam

Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar...

[Sapato Florido, 1948]

quinta-feira, julho 22, 2004

Quem Ama Inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

quarta-feira, julho 21, 2004

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares...
Perdão! digo quintanares.

[por Augusto Meyer e Manuel Bandeira]

quinta-feira, julho 01, 2004

Academia do Contra

Monteiro Lobato (que escreveu a orelha de Espelho Mágico depois de tê-lo encomendado) e Érico Veríssimo (que fez a introdução de Pé de Pilão) foram apenas alguns ilustres que o admiraram e prestaram suas homenagens enquanto ainda estava vivo. Suas palavras também eram aclamadas por Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Drummond, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto.

Nada mal para quem foi ignorado por três vezes pela Academia Brasileira de Letras, para a qual, na última e derradeira afronta, escreveu sem perder o rebolado, o famoso Poeminha do Contra.


Sobre a relação com a Academia Brasileira de Letras, disse uma vez que nunca quis fazer parte dela, pois achava que os imortais que dela participavam gastavam muito tempo recebendo estrangeiros de importâncias duvidosas. Além disso achava perigoso ter que estudar novos nomes para o ingresso, já que muitos deles eram amigos. Apesar de ter se candidatado por três vezes, não achava contraditórias suas opiniões, tendo em vista que, se fosse aceito, vestiria a camisa da entidade. Ele acreditava que a Academia deveria ter gente mais jovem, portanto a sua inserção já seria uma renovação.

Talvez para aliviar o peso na consciência de quarenta imortais - que deve ser grande - recebeu em 1980 o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra (tipo aquele prêmio que a Academia do Oscar dá aos grandes talentos injustiçados). Antes disso, porém, foi saudado em uma das sessões da Academia por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, através da leitura de um de seus poemas. No entanto, em sua terra natal, tornou-se Cidadão Honorário de Porto Alegre; ganhou placa de bronze na praça principal de Alegrete; recebeu a medalha Negrinho do Pastoreiro; ganhou duzentos botões de rosas e cravos das mãos de crianças em Passo Fundo; foi nomeado Doutor Honoris Causa da UNICAMP e da Universidade Federal do Rio de Janeiro e eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros em uma promoção da Academia Nilopolitana de Letras entre escritores de todo o país. Foi o quinto poeta a receber esse título. Os outros foram Olavo Bilac, Alberto Oliveira, Olegário Mariano e Guilherme de Almeida. E ainda tem gente que diz que os imortais tinham razão.

[desconheço o autor do artigo acima, agradeço quem puder informar a fonte]

Mario Quintana

Mario Quintana

http://quintanares.blogspot.com

parte final da entrevista

P - Que recado você vai mandar para os paraibanos?

R - Ah, eu quase fui morar na Paraíba. Porque eu servi na revolução de trinta e quando houve aquela batalha de Itararé (que não houve) eu estava na cidade de Rio Branco, no norte do Paraná. Aí se chegou a um acordo e o tenente, que era da Paraíba, me ofereceu o cargo de tenente-contador. Mãe eu disse pra ele que não pretendia ser soldado, nem prosseguir no serviço militar porque preferia voltar para o Sul. Isso aí por um lado foi bom, não é? Porque depois houve um golpe na Paraíba, imagine, eu poderia ter morrido... (risos)

[Entrevista concedida à: Joana Belarmino e Lau Siqueira em 16 de janeiro de 1987]
P - Mário, você fala muito do amor nos seus poemas. Mas, você não se casou, não teve filhos. Como explica isso?

R - Talvez porque não tenha tido tempo. Eu andei muito. Antes eu trabalhava em Alegrete, cidade onde nasci. Ali fui prático de farmácia. Mas quando estava esquentando uma coisa eu mudava para outra. No quarto ano do colégio eu fui reprovado porque só estudava Português, Francês e História. O resto eu nem abria e um dia meu pai disse: "Olha, você não quer estudar. É uma pena, mas, vagabundo não te quero. Vais trabalhar na minha farmácia. " E eu fui prático de farmácia por cinco anos. Depois quando ele faleceu, eu fui fazer a única coisa que eu gostava: fui trabalhar de jornalista no Estado do Rio Grande. Quando as coisas estavam esquentando de novo o Governador mandou fechar o Estado do Rio Grande. Era o Flores da Cunha. Ele era um velho caudilho risos). Aí fui trabalhar na Gazeta de Notícias, no Rio. Isso em 1936. Estive lá dois anos e aí fui trabalhar na Livraria do Globo. E sempre andando de um lado para o outro. E aí não tive tempo. Como é que vou saber porque é que não casei. Deve ter sido por causa dos astros, né? Vamos culpar os astros (risos).




P - (Joana) - Casou com a poesia?

P - (Lau) - Não, a poesia não é um casamento. É um caso, não é?


R - Ah... a poesia é um caso mesmo!

P - Quantos livros você traduziu?

R - Eu traduzi para a Livraria do Globo, cento e trinta e oito livros. No tempo em que eu era criança, o francês era moda e a minha mãe era professora de francês. Então, quando a gente, por exemplo, não queria que os empregados soubessem o que a gente estava dizendo, aí se falava em francês. Grande parte da revolução de 23, por exemplo, foi preparada em francês, porque se reuniam as senhoras dos oficiais para tomarem chá e comunicavam as coisas todas em francês. Imagine que na minha terra, em Alegrete, se fez revolução em francês. Que barbaridade! Naquele tempo as comunicações com a Europa eram bem mais fáceis que hoje. A França era a capital literária do mundo. Eu, quando estava na farmácia do velho, tinha conta numa livraria francesa. Eles mandavam os boletins e eu encomendava. Tudo vinha direto de Paris para Alegrete.

[Entrevista concedida à: Joana Belarmino e Lau Siqueira em 16 de janeiro de 1987]
P - Já se tentou três vezes colocar o seu nome na Academia Brasileira de Letras e não se conseguiu. Qual é, agora, a sua relação com a Academia?

R - As minhas relações com a Academia foram sempre boas, eu sempre me dei com gente de lá. Não estou dizendo que "as uvas estão verdes", mas, na verdade eu nunca quis pertencer à Academia. O pessoal de mentalidade futebolística não se satisfazia com apenas um nome gaúcho no time e achavam que devia ter outro lá. Resolveram me candidatar. Quando me candidataram da primeira vez, eu recebi o recado de um senador, que estava tudo preparado para entrar o Portela, os votos já estavam prontos e que eu deveria desistir... e eu disse para ele, por telefone, que não haveria de desistir porque o pessoal iria pensar que era covardia minha. E seria muita desconsideração de minha parte. Aliás, eu não gosto de Academia e jamais quis pertencer a ela porque a gente perde um tempo enorme recebendo visitantes estrangeiros de valor muito suspeito. Se pensa que ser estrangeiro é grande coisa, que se francês ou inglês é uma raridade e não é bem assim. Depois, na Academia, se começa a discutir quem vai ser o sucessor de quem, se recebe impressões de toda a parte para se votar e eu acho que isso atrapalha a vida do camarada, não é? Eu acho que ultimamente a Academia virou um depósito de ministros e com o perdão de alguns amigos que eu tenho lá, um asilo de velhos. Mas eu não tenho nada contra a Academia. De fato não há contradição minha em lamentar que não tenha sido eleito porque eu tensionava fazer tudo pela academia, se fosse eleito. Acho que, antes de tudo, ela deveria ter muita gente jovem. Eu acho que já seria uma renovação e acabava com aquela coisa. Na academia, já não gostaram muito de mim porque doisa naos antes da minha candidatura eu tinha dito que a Academia era uma espécie de sociedade recreativa e funerária (risos).

P - Como é o dia-a-dia de Mário Quintana?

R - Bem, eu acordo de manhã, vivo de dia e durmo de noite. Não tem nada de especial. Eu escrevo, ando, visito amigos...

P - Mário, cita dois ou três poetas brasileiros que você considera bons.

R - Olha, eu não gosto de citar. Eu só citarei um para evitar, depois, emissões inadvertidas ou divertidas. Eu citarei o Carlos Drummond de Andrade que é um dos poetas mais complexos do nosso País.

[Entrevista concedida à: Joana Belarmino e Lau Siqueira em 16 de janeiro de 1987]
P - O que você acha da velhice?

R - eu acho que é uma pena. Só que eu queria ter nascido 40 anos antes, e não oitenta anos antes (risos). Tudo isso eu já vivi, sabe? Quando o diabo me chamar eu já estou pronto.

P - Você já viveu oitenta anos. O que é que mudou em Porto Alegre desse período pra cá?

R - Olha, naturalmente o que mudou foi a arquitetura, não é? Eu vejo sempre uma cidade dentro da outra e lembro aquela cidade antiga. Mas pra me lembrar dela eu tenho que fechar os olhos (risos). Porto Alegre, antigamente, era muito mais calma. Não havia tantos assaltos, tanta violência... eu nasci no tempo das vacas gordas. Antes, o leiteiro deixava o leite na porta de casa e ninguém roubava. Hoje roubam até as galinhas dos despachos. Os tempos mudaram, os costumes, mas a vida continua a mesma. Eu não sou como aqueles velhos que dizem: "Ah, os bons velhos tempos..." eu tenho vontade de dizer para eles: "Olha seu moço... seu moço, não, seu velho. Os tempos são sempre bons, o senhor é que não presta mais... (risos).

P - Você continua a escrever poesia com freqüência? Publicará algum livro este ano?

R - Olha, eu não sei fazer outra coisa na vida. Este ano vou publicar dois livros: Um diário poético, com pensamentos sobre cada dia. No dia universal da mulher, por exemplo, eu escrevi o seguinte: " De cada dois gambás - eu não sei se na Paraíba se usa a palavra gambá para se definir um bêbado - um é porque nãop tem mulher e o outro é porque tem. (risos).

[Entrevista concedida à: Joana Belarmino e Lau Siqueira em 16 de janeiro de 1987]
P - Existe alguma pergunta que os jornalistas sempre fazem e que você considera chata?

R - Não. O que existe é uma pedida chata. Há pessoas que dizem, por exemplo: "Seu Mário, faz uma dedicatória bem poética pra mim... Olha, o que eles entendem por poética me deixa horrorizado.

P - Quando foi que a poesia entrou na sua vida?

R - Eu comecei a fazer versos desde que me entendi por gente. Eu acho que ser poeta não é uma maneira de escrever, é uma maneira de ser. Assim, como nascem pessoas de olhos azuis ou pretos, nascem também os poetas. Mas eu só publiquei mesmo o meu primeiro livro muito mais tarde. Os poetas novos tem ânsia de publicar logo, eles deveriam esperar ficar mais amadurecidos pela vida, não é? E assim, iriam amadurecendo também o seu instrumento, que são as palavras. O poeta quando mais velho tem tendência de ficar melhor, com o estilo mais depurado. Viveu mais, não é?

P - Você acha que Mário Quintana já está pronto, é um bom poeta?

R - Olha, eu sou m eterno aprendiz. Porque o poeta que descobre uma fórmula, ganha renome, não quer outra vida, e fica conversando com os amigos sentado em cima do muro sem se espetar, esse está perdido, porque eu acho que a poesia não é mais que a procura da poesia, como acho que também Deus se resume na procura de Deus. Eu publiquei meu primeiro livro aos 34 anos. Foi "A Rua dos Cataventos".

[Entrevista concedida à: Joana Belarmino e Lau Siqueira em 16 de janeiro de 1987]