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quarta-feira, outubro 29, 2008

Nos salões do sonho

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


terça-feira, outubro 28, 2008

Este e o outro lado

Tenho uma grande curiosidade do Outro Lado.
(Que haverá do Outro Lado, meu Deus?)
Mas também não tenho muita pressa...
Porque neste nosso mundo há belas panteras, nuvens, mulheres belas,
Árvores de um verde assustadoramente ecológico!
E lá - onde tudo recomeça -
Talvez não chova nunca,
Para a gente poder ficar em casa
Com saudades daqui...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


segunda-feira, outubro 27, 2008

Um poema?

No mundo não há nada mais triste do que uma boneca morta...
Talvez porque sua mãezinha tenha morrido de parto!
Ou encontrar um vestido de noiva numa casa de penhores
Ou começar cheio de rimas quando se escreve em prosa
Ou não encontrar rimas quando se escreve em verso
(Também, quem me mandou escrever clássico?!)
Bendita seja a Isadora Duncan, que inventou o verso livre da dança!
Só não sei,
Mesmo,
O que eu queria dizer com tudo isso...



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


domingo, outubro 26, 2008

Virá bater à nossa porta?

Esse tropel de cascos na noite profunda
Me enche de espanto, amigo...
Pois agora não existem mais carros de tração animal.
É com certeza a morte no seu carro fantasma
Que anda a visitar seus doentes pela cidade..
Será ela? Virá acaso bater à nossa porta?
Mas os fantasmas não batem; eles atravessam tudo silenciosamente,
Como atravessam nossas vidas...
A morte é a coisa mais antiga do mundo
E sempre chega pontualmente na hora incerta...
Que importa, afinal?
É agora a única surpresa que nos resta!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sábado, outubro 25, 2008

O tamanho da gente

O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...




[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sexta-feira, outubro 24, 2008

O tamanho do espaço

A medida do espaço somos nós, homens,
Baterias de cozinha e jazz-band,
Estrelas, pássaros, satélites perdidos,
Aquele cabide no recinto do meu quarto,
Com toda a minha preguiça dependurada nele...
O espaço, que seria dele sem nós?
Mas o que enche, mesmo, toda a sua infinitude
É o poema!
- por mais leve, mais breve, por mínimo que seja...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


quinta-feira, outubro 23, 2008

Catástrofe

O meu esporte único é a Luta corpo a corpo com o meu Anjo da
Guarda.
Lutamos tanto pelo que queremos
Que no final ficaremos redondamente mortos no chão,
Para maior alívio de Nosso Senhor,
Para sempre livre de nós dois!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


quarta-feira, outubro 22, 2008

Nos solenes banquetes

Nos solenes banquetes de próceres internacionais
- em especial sobre desarmamentos -
O aparte mais espontâneo
é o riso de prata de uma colherinha
Que por acaso tombou no chão!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


terça-feira, outubro 21, 2008

Os psicanalistas, como o caso deles me preocupa.
Eles próprios sofrem de um dos mais terríveis complexos do mundo,
Que é o complexo dos complexos.
Ah, se a gente pudesse ter uma simples e amistosa conversa com eles,
Sem que descubram coisas por trás!
E se, por acaso,
Tombar um ovo choco no chão,
Por que hei de ser um maníaco homicida,
Um fabricante de anjinhos?!
Por que não vão eles inquirir sobre isso o próprio Acaso,
Que não sabe de nada...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


segunda-feira, outubro 20, 2008

Da Imparcialidade

O homem - eternamente escravo de suas paixões pessoais -
Ë absolutamente incapaz de imparcialidade.
Só Deus é imparcial.
Só Ele é que pode, por exemplo,
Abençoar, ao mesmo tempo,
As bandeiras de dois exércitos inimigos que vão entrar em luta...



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


domingo, outubro 19, 2008

Estranheza

Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum:
Não acreditamos muito uns nos outros...



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sábado, outubro 18, 2008

O nome e as coisas

Para que estragar a simples existência das coisas com nomes
arbitrários?
Um gato não sabe que se chama gato
E Deus não sabe que se chama Deus
("Eu sou quem sou" - diz Ele no livro do Gênesis)
Eu sonho
Ë com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como deve ser a linguagem das plantas e dos animais!
Só de adjetivos, sem explicação alguma,
Mas com muito mais poesia...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sexta-feira, outubro 17, 2008

Liberação

Que bom deveria ser o mundo antes do nascimento de Cristo
E da rainha Vitória!
A única esperança que nos resta é a desse novo século que aí vem,
Liberto, sem injunções de espécie alguma.


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


quinta-feira, outubro 16, 2008

Este nosso mundo

Sentiu Adão que alguém se aproximava silenciosamente
E lhe tapava os olhos com carinho!
"Adivinha quem é, meu queridinho?!"

Quem mais podia ser senão a sua doce, a sua querida Evinha?
Adão sorriu com aquela brincadeira.

Voltou a sorrir-se para ela... Mas não:

A voz que ouvira não era dela, mas a voz sinuosa da Serpente,
Que acabara de devorar a maçã e a própria Eva!
E desde então ele ficou sem companheira nem nada

E teve, até agora,
De fazer tudo pela própria vida
Neste mundo do Diabo!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


quarta-feira, outubro 15, 2008

Madrigal

Tu és a matéria plástica de meus versos, querida...
Porque, afinal,
Eu nunca fiz meus versos propriamente a ti:
Eu sempre fiz versos de ti!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


terça-feira, outubro 14, 2008

o Eterno Cristo

O povo adora e vive suspirando por um Messias,
Que o venha libertar de tudo no mundo,
Mas quando esse Dia Santo
Chega afinal,
Todos os seus crentes, cheios de espanto e medo,
A única coisa que conseguem fazer é apedrejá-lo!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


segunda-feira, outubro 13, 2008

Da mesma idade


Criança que brinca e o poeta que faz uns poemas

Estão ambos na mesma idade mágica!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


domingo, outubro 12, 2008

Bucólica


Na solidão da noite
uma vaca, uma abençoada
vaca
muge:
o seu mugido é um rio de veludo morno,
voz de mãe e de amante:
quente e cariciosa...
- à mesma voz que tu, antes de me abandonares,
Tinhas sempre comigo!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sábado, outubro 11, 2008

Um novo Cântico dos Cânticos

Vamos compor, ó Bem-Amada, um novo Cântico dos Cânticos:

"Tu louvarás unicamente a ti!

Eu louvarei unicamente a mim!"

(É tão sincero quanto o outro, não achas?...)





[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sexta-feira, outubro 10, 2008

Reflexão para o dia de finados

Morrer, enfim, é realizar o sonho
que todas as crianças têm...
O motivo? Só elas sabem muito bem:
Fugir... fugir de casa!




[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



As despedidas


Nas despedidas
O mais doloroso é que
- tanto o que fica como o que vai embora -
Poem-se os dois a pensar:
"Meu Deus! quando é que parte o raio deste trem!"




[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


quinta-feira, outubro 09, 2008

As tias


Sempre estão nos acusando de alguma coisa,
Com o dedo em riste: "Meninos, não façam isto!
Não presta deixar os sapatos virados no chão com a sola para cima,
Nem nunca puxar dessa maneira as tranças da Adalgisa!"
No entanto não sabem
Que as crianças no fundo gostam disso
E que a violência é uma das formas mais deliciosas do amor...
A gente grande só tem ridículas briguinhas conjugais
Apenas para poderem se reconciliar depois!
Ai de nós, de nossa vida com elas...
As nossas intrometidas tias são eternas e de todos os sexos!




[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


terça-feira, outubro 07, 2008

Os inconvenientes da perfeição


Corre no céu este boato que os próprios anjos me contaram:
Às vezes Deus, saturado da sua infinita perfeição,
Resolve trocar de lugar com o Diabo.
Resultado:
Sempre sai ganhando longe do Outro...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


segunda-feira, outubro 06, 2008

São Jorge

Um dia um papa decretou que São Jorge jamais havia existido.

Meu Deus! a falta que nos faz São Jorge...

Se ninguém se atrever a montar no seu Cavalo Branco,

O Dragão Negro nos apanhará!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


domingo, outubro 05, 2008

O Eterno Sacrifício

Como dar vida a uma verdadeira obra de arte
A não ser com a própria vida?



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sábado, outubro 04, 2008

"A Gioconda"

Descobri o famoso mistério
Do teu sorriso, Gioconda...
Pensando bem,
É o mesmo sorriso que tem
Essa gente sempre de boca fechada
De tanta gente no mundo...
O que há nisso de profundo? É apenas
Porque já perderam todos os dentes!






[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


sexta-feira, outubro 03, 2008

Baudelaire


Baudelaire, fervoroso adepto e puxa-saco de Satã,
Meu Deus! era demais até...
Mas Deus esperou pacientemente que ele morresse
E, para vingar-se dele de uma vez por todas,
O mandou para o Reino dos Céus!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


quinta-feira, outubro 02, 2008

Antros noturnos

Há Anjos que costumam freqüentar esses antros noturnos que são os
sonhos dos humanos...
São eles que, na hora extrema, costumam interceder por nós...
Os outros são dedos-duros!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


eterno espanto

"Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?"

[Mario Quintana]


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Os textos encontrados aqui são fragmentos da obra de Mario Quintana - e sempre que possível será citada a fonte original, com o nome do livro e editora.
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Porta Giratória

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INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA

A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...

[Mario Quintana]